segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Like Alice - Part II

Virava-se de um lado para o outro, procurando o sono tranqüilo que há tantas noites não encontrava. Sentia o vazio pesado de alguém que está na encruzilhada das escolhas sem fim, que fazemos no decorrer da vida.

Ainda que fosse menos constante, devido à correria dos dias e ao rápido passar do tempo, Alice ainda sonhava com um beijo em Edimburgo, com uma pequena fonte no jardim, com um coração sincero, com alguém que realmente se importasse, e que dissesse “sim” sem ao menos ouvir as perguntas.

Estava cansada de ter que sorrir para aqueles que só tinham interesses dúbios e corações perversos: não queria mais estar com aqueles de quem não gostava, mas que a conveniência exigia. Por muitas vezes achou que o fazia por amor, por doação, e por muitas vezes, foi assim que aconteceu.

Mas chegara o tempo em que Alice aprendera, que quando se doa e se sacrifica demais, esquece-se de si mesma, e a identidade se esvai, e o beijo em Edimburgo fica para amanhã... Ou para depois de amanhã... Até virar poeira nas estantes da memória.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Like Alice


Alice gosta de conchas
de gatos cinzas e azulados
do som leve da chuva no telhado
dos endereços ainda não visitados

gosta das cartas ainda não escritas
dos sonhos que renascem do pó
e de toda forma de amor irrestrita

gosta dos beijos de algodão doce
e do doce deleite de devanear

Alice gosta de colecionar estrelas:
uma para cada céu, e uma para cada mar
transbordante em sua vida

gosta de temperos novos e de versos antigos
(diversos amigos)
no outono gosta das cores em tom terra
e da brisa calma na primavera

Alice gosta de pés descalços e almas abertas


 
Mari – 30/01/12

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011


De todos os tons
De todas as medidas:
Infinitude

De todas as formas
De todas as cores:
Solitude

O amor valioso não é aquele que se recebe:
É o que se desprende...

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Como as mulheres dominaram o mundo

Conversa entre pai e filho, por volta do ano de 2031 sobre como as mulheres dominaram o mundo:

"- Foi assim que tudo aconteceu, meu filho... Elas planejaram o negócio discretamente, para que não notássemos Primeiro elas pediram igualdade entre os sexos. Os homens, bobos, nem deram muita bola para isso na ocasião. Parecia brincadeira.
Pouco a pouco, elas conquistaram cargos estratégicos: Diretoras de Orçamento, Empresárias, Chefes de Gabinete, Gerentes disso ou daquilo.

- E aí, papai?

- Ah, os homens foram muito ingênuos. Enquanto elas conversavam ao telefone durante horas a fio, eles pensavam que o assunto fosse telenovela. Triste engano. De fato, era a rebelião se expandindo nos inocentes intervalos comerciais. "Oi querida!", por exemplo, era a senha que identificava as líderes. "Celulite", eram as células que formavam a organização. Quando queriam se referir aos maridos, diziam "O regime".

- E vocês? Não perceberam nada?

- Ficávamos jogando futebol no clube, despreocupados. E o que é pior: continuávamos a ajudá-las quando pediam. Carregar malas no aeroporto, consertar torneiras, abrir potes de azeitona, ceder a vez nos naufrágios. Essas coisas de homem.

- Aí, veio o golpe mundial?!?

- Sim o golpe. O estopim foi o episódio Hillary-Mônica. Uma farsa. Tudo armado para desmoralizar o homem mais poderoso do mundo. Pegaram-no pelo ponto fraco, coitado. Já lhe contei, né? A esposa e a amante, que na TV posavam de rivais eram, no fundo, cúmplices de uma trama diabólica. Pobre Presidente...

- Como era mesmo o nome dele?

- William, acho. Tinha um apelido, mas esqueci... Desculpe, filho, já faz tanto tempo...

- Tudo bem, papai. Não tem importância. Continue...

- Naquela manhã a Casa Branca apareceu pintada de cor-de-rosa. Era o sinal que as mulheres do mundo inteiro aguardavam. A rebelião tinha sido vitoriosa! Então elas assumiram o poder em todo o planeta. Aquela torre do relógio em Londres chamava-se Big-Ben, e não Big-Betty, como agora... Só os homens disputavam a Copa do Mundo, sabia? Dia de desfile de moda não era feriado. Essa Secretária Geral da ONU era uma simples cantora. Depois trocou o nome, de Madonna para Mandona...

- Pai, conta mais...

- Bem filho... O resto você já sabe: instituíram o Robô "Troca-Pneu" como equipamento obrigatório de todos os carros... A Lei do Já-Prá-Casa, proibindo os homens de tomar cerveja depois do trabalho... E, é claro, a famigerada semana da TPM, uma vez por mês...

- TPM???

- Sim, TPM... A Temporada Provável de Mísseis... E quando elas ficam irritadíssimas e o mundo corre perigo de confronto nuclear...

- Sinto um frio na barriga só de pensar, pai...

- Sssshhh! Escutei barulho de carro chegando. Disfarça e continua picando essas batatas..."

Luis Fernando Verissímo

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"A unicidade do "eu" se esconde exatamente no que o ser humano tem de inimaginável. Só podemos imaginar o que é idêntico em todos os seres, o que lhes é comum. O "eu" individual é o que se distingue do geral, portanto o que não se deixa adivinhar nem calcular antecipadamente, o que precisa ser desvendado, descoberto, conquistado no outro".

-Milan Kundera-

domingo, 17 de julho de 2011


Quem convive comigo de pertinho, conhece um dos meus grandes medos: Enlouquecer – Desvairar – Surtar! Ou como diria minha vó: “Morrer louca”!

Digo isso porque sempre acho que não penso coisas normais, como a grande maioria dos seres. Não que eu não pense nunca sobre coisas normais, mas a maioria não é normal. E eu tenho sérios problemas em conversar sobre coisas normais com pessoas normais – e ainda assim elas costumam gostar de mim. Acho que a maior loucura já começa aí!

Eu não sei conversar sobre novelas, programas de televisão ou “notícias bombásticas de última hora” (leia-se fofocas, sensacionalismo, violência ou desgraça alheia!). Não sei qual é a última cor ou sapato da moda (odeio usar sapatos!). Não sei quem está ficando com quem no meu “círculo social” (como se eu fosse um ser muito sociável!), ou quem está ficando com quem no “mundo das estrelas” (“meu mundo das estrelas” é muito diferente!).

Sou um tanto quanto desligada e não consigo prestar atenção nos carros que passam e nas propagandas dos outdoors, ou observar as roupas e acessórios da cidadã que me parou para pedir informações (quando muito, enxergo as pessoas conhecidas nas ruas).

Meus pensamentos viajam intensamente o tempo todo. Talvez Sandman viva soprando muita areia em meus olhos, e então eu passo os dias e as noites devaneando-e-sonhando-e-pensando infinitas coisas. A minha cabeça é algo parecido com a letra abaixo:

 
Disneylândia

Filho de imigrantes russos casado na Argentina com uma pintora judia, casou-se pela segunda vez com uma princesa africana no México.
Música hindú contrabandeada por ciganos poloneses faz sucesso no interior da Bolívia.
Zebras africanas e cangurus australianos no zoológico de Londres.
Múmias egípcias e artefatos incas no museu de Nova York.
Lanternas japonesas e chicletes americanos nos bazares coreanos de São Paulo.
Imagens de um vulcão nas Filipinas passam na rede de televisão em Moçambique.
Armênios naturalizados no Chile procuram familiares na Etiópia.
Casas pré-fabricadas canadenses feitas com madeira colombiana.
Multinacionais japonesas instalam empresas em Hong-Kong e produzem com matéria prima brasileira para competir no mercado americano.
Literatura grega adaptada para crianças chinesas da comunidade européia.
Relógios suíços falsificados no Paraguai vendidos por camelôs no bairro mexicano de Los Angeles.
Turista francesa fotografada semi-nua com o namorado árabe na baixada fluminense.
Filmes italianos dublados em inglês com legendas em espanhol nos cinemas da Turquia.
Pilhas americanas alimentam eletrodomésticos ingleses na Nova Guiné.
Gasolina árabe alimenta automóveis americanos na África do Sul.
Pizza italiana alimenta italianos na Itália.
Crianças iraquianas fugidas da guerra não obtém visto no consulado americano do Egito para entrarem na Disneylândia.

-Titãs-

E enlouqueço um pouco por dia...

sábado, 2 de julho de 2011


The Endless

Perpétuos são os Sonhos, a Morte
o Delírio/Deleite da alma que ama
os Desejos dos que se apaixonam

Perpétuo é o Desespero
em saber que há um Destino desconhecido
porém já traçado

Perpétua é a capacidade humana da Destruição
infindável

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Personificações humanas eternamente Sem Fim

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Realidade em Releitura - (Recortes)


Sou tão eu de mim!
Não há vida que se pague
e não há amor que não se doe (e doa!).

Pelos caminhos tortos de nossa razão e loucura
vou seguindo e seguindo,
através do desprezo, interesses e amargura,
vou sendo tão eu e vou me desiludindo.

Através de meu passo lento, eu tento e tento,
e já não me resta lamento,
em ser a verdade pura deste cansado coração.

Enquanto isso eles brincam,
você e eu brincamos,
de faz e refaz de conta,
e assim continuamos.

Realidade em releitura
nesta visão que nos tortura
num porto de tempo aberto
onde o horizonte é incerto
...deserto...

-Mari-
(Poema original escrito em Novembro de 2006)

domingo, 26 de junho de 2011


um brinde à vida louca, vida insana
um canto para a insconstância, à penúria
de uma mente sem limites, intransponível
que não pára, não descansa

um amor para viver e um para guardar
um destino para se (des)conhecer e um para (des)consertar
reconhecer um instante puro
derrubar o concreto muro

um badalar de sinos para a noite
e uma noite para se lembrar
um sorriso para o inocente
um acaso que não se pressente

uma brisa para a primavera
um momento que se deseja, se espera
aquela palavra exata, um simples olhar
aquele estranho beijo doce, infinito

um pedido para uma estrela que cai
um despertar para a nova semente
um acordar para o que realmente se sente
uma nuvem para acariciar a alma

nenhum caminho p´ra se voltar
tão pouco um p´ra se chegar
um caminho só p´ra caminhar
e um coração livre... p´ra te guiar

Mari – Jan/2007

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Quando um gato dorme

Por motivos óbvios e compreensíveis, já fazia um tempo que o Kiko não vinha mais se deitar em minha cama, e se aconchegar em meus pés.
No entanto, há exatamente uma semana, numa daquelas sextas-feiras em que você chega em casa desolada, exausta e péssima, e tudo que você quer é apenas um banho quente e quarto escuro, eis que sinto as patinhas a marchar em minhas pernas, logo após trancar a porta, me enfiar debaixo das cobertas, e apagar a luz. É impressionante como gatos são rápidos, inteligentes, esguios, e sabem ser a melhor companhia num momento de angústia. Principalmente se este gato convive com você a mais de dez anos!
No mesmo momento em que ele se aconchegou em minhas pernas, meu coração se acalmou, e lembrei-me que, há não mais que algumas horas, eu havia lido algo exatamente sobre este momento mágico: o instante em que o gato dorme!
Resolvi então reler o artigo “O gato dentro de mim – 36” do francês M. Dupont White (cujos textos são publicados toda sexta-feira no Jornal de Piracicaba), onde os trechos mais especiais são:

“... não há nada que simbolize mais a calma e a visão idílica de um mundo perfeito do que um gato dormindo.”
“... mas o gato ainda está lá, calmo e plácido, para nos lembrar que a harmonia ainda é possível.”
“... quando quero me acalmar e procurar um porto seguro para as atribulações da vida cotidiana eu costumo observar um gato dormindo. Nada traz mais paz e harmonia. O mundo parece fazer uma pausa em seu movimento quando um gato dorme, pois, ao acordar, toda tormenta já terá cessado.”

É interessante notar como seu dia pode terminar exatamente como começou. A leitura matinal da sexta-feira já previa o seu epílogo...

Desde este dia, sempre que possível, o Kiko dribla a visão astuta do Thales, mia diante da porta fechada, e eu, ainda zonza de sono, me levanto para abrí-la, e deixo que ele se enrole no cobertor comigo novamente. Meia hora depois, o menorzinho também mia, quase chorando, também querendo entrar. E desta forma, aprende-se a convivência!
No fim das contas, sempre tenho que acordar e me levantar... Mas daí, “toda tormenta já terá cessado.”