terça-feira, 14 de julho de 2015

Sobre a Modernidade (Líquida ou não!)

Já dizia Bauman que a modernidade está cheia de conexões (ao invés de relações e laços), e estas sofrem de fragilidades: exclusão e edição são coisas extremamente fáceis e praticáveis nos dias atuais - exclui-se o contato que já não lhe serve mais no trabalho, e edita-se a foto antes de publicá-la (porque a imagem tem que ser "leve", "fluida" e condizente com os padrões modernos!).

A liquidez, a leveza, a fluidez... não sustentam a ânsia do ser humano por muito tempo (a insustentável leveza!). Mas vivemos estes três itens dia a dia, cada vez mais, dedicando nossas vidas às frágeis conexões: virtuais, reais, espirituais, ideais... não temos mais a solidez das cartas escritas à mão, do preparo caprichoso e demorado da comida e da mesa, das promessas cumpridas por toda uma vida, da sola do pé sentindo a grama fresca, de esperar dias ou semanas para conseguir ver a foto tirada, das rugas no rosto com o passar do tempo... 

Lembrem-se, tudo pode ser excluído e editado! E nos tornamos escravos das "facilidades" da modernidade sem forma - tão líquida que chega a transbordar na falta de sentido! E como é difícil manter-se flutuando nessa liquidez, sendo levado pelas tendências, padrões, moldes, modelos, convenções, etc., etc., etc. 

Sim, você pode me dizer que não concorda com este conceito de modernidade, ou que talvez a leveza e fluidez em demasia não sejam assim tão ruins. Pode até mesmo tentar me convencer que este é o tempo que estou vivendo, e que tenho que me adaptar à ele... Mas eu insisto em me agarrar a algum destroço em meio à enxurrada, me beliscar às vezes para me manter acordada, me desacelerar para que a artificialidade não ganhe espaço na minha modernidade, líquida ou não!

E líquida ou não, nossa modernidade escorre entre os dedos... e sangra na alma!



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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Like Alice - Part XIV


a simplicidade do vento que toca as folhas:
assim é o andar de Alice...

nada mais é turvo, e nada mais é luz: é apenas simples!




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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Like Alice – Part XIII


De olhos inchados enxerga-se tão turvo e tão vagarosamente.
Os ombros e a alma pesam por tantos sentimentos.
O coração já não dá conta de bombear tudo.
A flecha e a palavra lançadas não voltam atrás.
O silêncio é o melhor companheiro, e o melhor esconderijo.
Os sonhos se perderam no caminho, e pararam para descansar em uma sombra qualquer.
As fotos e os versos se perderam junto com os sonhos.
As mãos já não sabem mais o que é abrigo, e os pés descalços doem.
O medo toma conta dos sentidos.
A dúvida é tão cruel quanto a lâmina sobre a pele quente.


Alice chegou à encruzilhada, e não sabe pra onde ir...



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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Like Alice - Part XII


Alice sempre acreditou que eram as coisas mais simples que davam sentido a tudo:

-O sobe e desce da patinha do gatinho em seu colo;
-As cartas e bilhetes escritos à mão;
-A criança que escreve o nome pela primeira vez;
-O sentimento intenso de dois olhares que se encontram (e a bochecha vermelha e arrepio no corpo quando isso acontece!);
-Andar descalça e de cara lavada em qualquer lugar, em qualquer hora;
-A fumaça do café saindo da xícara numa manhã fria;
-O toque suave de duas almas que se encontram num abraço;
-A coleção de livros e cadernos antigos já amarelados na estante;
-Notar um olhar distante e profundo em qualquer estranho na rua, e entender que há uma história fascinante por trás disto;
-Sentar na grama para assistir o por do sol (ou o nascer do sol!);
-Inventar para si mesmo um milhão de histórias e destinos em sua cabeça;
-Olhar o céu a noite e dar nomes às estrelas (e saber que elas sempre estarão lá para te relembrar algo);
-Tentar esconder um sorriso ou desviar um olhar para disfarçar o que está no coração;
-Escolher meticulosamente todas as palavras, e ver que a outra pessoa entendeu todas elas, da forma mais bela possível;
-Escrever em algum lugar o trecho preferido do livro que está lendo;
-Tomar chuva e depois um banho quente;
-Ficar de pijama e meia o dia inteiro no domingo;
-Ser surpreendida com qualquer coisinha boba;
-Soluçar com a cena do filme;
-Ouvir música alta. Não! Ouvir música muito alta!
-Errar completamente a receita e criar um prato novo;
-Caminhar de mãos dadas na praia;
-Ler "O Pequeno Príncipe" pela milésima vez, e de novo, e de novo;
-Tirar tudo do lugar para depois arrumar de novo;
-Ganhar um beijo quente e inesperado numa noite de inverno;
-Fogueira + amigos + violão;
-Rir até chorar;
-Chorar até dormir, e no outro dia acordar com a cara toda inchada;
-Respeitar e cultivar qualquer diferença com naturalidade;
-Imaginar que você tem poderes mágicos;
-Imaginar que você pode salvar o mundo;
-Fazer listinhas... tipo esta...

E assim, continuava tentando dar sentido a tudo...



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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Like Alice – Part XI

Alice entendia muito pouco sobre tudo, incluindo ela mesma.

Algumas vezes visualizava sua vida como uma imensa Roda de Samsara (misticamente), ou presa ao mito nietzschiano do eterno retorno (filosoficamente). A diferença entre um e outro já não era tão grande assim, e o que notava é que estava fadada a um eterno círculo do qual não conseguia sair.

Em outras vezes enxergava sua vida como a difícil batalha da borboleta para sair do casulo: era tudo tão dolorido e sufocante, mas um dia conseguiria esticar as asas ao sol e secá-las, até conseguir levantar o voo definitivo, mostrando assim sua mais profunda beleza e força.

“Às vezes temos que escolher o incerto, para podermos encontrar o certo... mas para isso, temos que ter o sutil discernimento das estradas mais bonitas e intensas...”.

No caos latente do seu coração, enxergava muito menos do que queria e sentia muito mais do que podia... e por mais que quisesse, ou se esforçasse, a lágrima já não caía... tinha só o silêncio profundo das noites de inverno (ou como disse o velho mago – “o fôlego que se toma antes do mergulho”).

Para fugir de tudo isso, permitia-se estar vulnerável a qualquer palavra bonita, a um suspiro mais logo, a um olhar distante, e a qualquer pensamento bobo que a fizesse sair de si.

Mas ainda assim, entendia muito pouco sobre tudo, incluindo ela mesma e o próprio coração.


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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Poeira na estante – Parte III

Tempos (Agosto/2001)

O silêncio sufocante do presente
lembra-me o passado vivenciado,
teu espírito blindado,
meu sentimento abalado,
todo amor lançado,
e todo amor renunciado.
Lembra-me dos dias em que
meus pés descalços corriam,
livres para brincar,
para os sonhos de criança sonhar.
Enquanto os pés corriam,
o tempo criava asas...
E voávamos, sonhávamos,
conhecendo os horizontes,
viajando entre os homens.
Procurando respostas,
por entre as encostas.
E neste instante presente,
sinto a vida em minhas mãos!
Tenho que escolher a direção!
E o tempo está ao meu lado
levando-me ao futuro
que não se vê e não se sabe.
Apenas se sente...
E pressente...



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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Poeira na estante – Parte II

Nublado (27/05/2001)

Sinta o passar das horas:
os olhos que se fecham,
as mãos que escorregam,
sobre a alma tocada.

Veja as letras sobre a cama,
e os talheres sobre a mesa.
Ouça os ruídos lá fora,
e os carros que passam.

Sinta a paz aqui dentro,
e o desejo de viver.
Sinta a espera suave e silenciosa,
capaz de durar uma eternidade.

Nenhum semblante sob as nuvens,
e nenhuma culpa a lamentar.
Não me resta mais nada nesta tarde:
apenas esperar...

sábado, 28 de setembro de 2013

Poeira na estante – Parte I

Crescer (2001)

Mil papéis sobre a mesa,
de todas as formas e todas as cores,
sem nenhuma culpa, nem dores.
Apenas papéis.
Entre eles, um coração,
no qual eu posso me enxergar.
Meu nome está lá,
em meio a tantas confusões e perguntas;
em meio a tantas ilusões e sentimentos.

Sim, um coração!
Que nem é tão velho assim,
que está apenas começando a crescer,
mas que já sabe amar,
e também odiar.
O ódio passa em poucos instantes,
talvez por ser um sentimento inútil e estúpido.
O amor, o tempo também há de apagar,
mas há uma coisa que esqueceram de contar:
o amor não é um sentimento inútil,
tão pouco estúpido!

Dúvidas e contradições,
misturadas com ilusões,
deixam-te sem ar.
Mas depois de parar para pensar,
você retoma seu caminho:
às vezes certo, às vezes errado.

São tantas mudanças...
São tantas cobranças...
E tantas semelhanças!

O sangue que corre em suas veias,
fervilham em revolta e amargura.
E num instante,
transformam-se em risos e sonhos.

Sonhos...
Deixe-me sonhar!
Deixe-me pelo menos acreditar,
que um dia irei te alcançar,
ou que um dia irei te esquecer!

Ouçam nossos gritos e clamores!
Vejam nossas alegrias e horrores!
Sintam nossos medos e amores!
E deixem a paz nos encontrar...

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Descrição

É engraçado e estranho quando alguém expõe o que pensa sobre você... quando evidencia o que acha... quando te descreve de alguma forma!

As opiniões e olhares de cada pessoa serão sempre diferentes, e ao mesmo tempo, sempre com alguma coisa em comum. E por muitas vezes me fazem refletir a ótica de cada um, o que realmente sou, e ainda, o que aparento ser diante de tantas retinas!

Abaixo, uma descrição:

“Mari: Tal qual como os gatos (que nós gostamos tanto!) chegou livre, espaçosa e cheia de opinião. Gostei de você no instante que te vi! O que me lembra você é o trecho de uma música:

‘Ser capitã deste mundo,
poder rodar sem fronteiras.
Viver um ano em segundos,
não achar sonhos besteira.

Me encantar com um livro,
que fale sobre vaidade.
Quando mentir for preciso,
poder falar a verdade’. “ 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Like Alice – Part X


“Precisa-se cuidado ao dar passos grandiosos e mudar certas coisas...” – dizia para si mesma enquanto rolava pela cama, e derrubava o cobertor pela terceira vez.

Depois Alice mudou o pensamento para as fantasias que sempre utilizou para fugir da realidade: muitas vezes imaginou-se como guerreira com armadura em campo de batalha. Outras vezes imaginou-se correndo pela floresta, fugindo de sombras que não identificava, esperando chegar a um beijo doce e apaixonante no final do caminho... alguém que a amasse e a protegesse de todo mal. Também viu-se tantas vezes trancada num castelo de pedra, cercada de livros, lendas, histórias, quadros e objetos antigos... naquele lugar, devaneava e escrevia sobre outras histórias e lendas.

Todos estes “personagens” a faziam pensar se ela em si, seu cotidiano, sua vida, seu entorno, não eram parte dos pensamentos, devaneios e imaginação de algum outro Ser. Sendo assim, ela só seria mais um personagem na cabeça de outro alguém, ainda que se beliscasse para verificar se estava acordada (ainda que desde pequena, sempre sentira lá dentro um wake-up call que fazia parte do que chamava de “sentimentos sem nome”).

Desta forma, no seu íntimo, às vezes pedia para este Ser que algumas coisas fossem diferentes em sua vida. No entanto, ela sempre tomava cuidado ao dar passos grandiosos e mudar certas coisas...